O que é isto?


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ENTREVISTA COM O AUTOR

- Qual a idéia central de O Zahir? O inesperado acontece – e nem sempre estamos preparados para ele. Quando tudo em nossa vida parece organizado, aí está o perigo. Porque o que chamam de “organização”, na verdade, é apenas uma história que nos contaram, e que não se sustenta por ela mesma. No livro, procuro explorar a história que não nos contaram, usando como personagem principal um escritor de sucesso, que de repente é abandonado por sua mulher, e tem que redescobrir sua vida. Mas ao invés de dar um passo adiante e descobrir outras oportunidades, ele deixa-se dominar pela pergunta “por que minha mulher me deixou”, e isso se transforma em seu Zahir. - O que é um Zahir? Segúndo o escritor argentino Jorge Luis Borges, la idea del Zahir viene de la tradición islámica, con un origen estimado en el S. XVIII. Zahir, en árabe, significa visible, presente, incapaz de pasar desapercibido. Algo o alguien con el que una vez entramos en contacto, y que termina por ir ocupando poco a poco nuestro pensamiento hasta que no conseguimos concentrarnos en nada más. Esto puede ser considerado como santidad o como una locura. - Até que ponto O Zahir” é auto-biográfico? O quanto de você mesmo encontrará na história? O livro é baseado em muitas experiências minhas como escritor, e como ser humano. Todo livro tem seu aspecto auto-biografico, já que não podemos transformar nada além de nossa própria experiência. Mas continuo casado com minha mulher, que é artista plástica, a quem o livro é dedicado. - No livro, a mulher do escritor bem-sucedido tem fama, sucesso, independência profissional, e mesmo assim o abandona. Por que razão? Uma das grandes armadilhas do ser humano é a “busca da felicidade”. Esther, a mulher do escritor, embora seja bem sucedida em todos os campos, não é uma pessoa feliz. E ao invés de fazer como a maioria das pessoas – que simplesmente se engana a respeito, e vive ocupada para não ter que pensar no sentido da vida – ela resolve ir em busca daquilo que chamam “felicidade”. - Neste momento, ela decide tornar-se uma correspondente de guerra. Exato. Uma guerra é sempre uma experiência que leva ao homem ao seu limite, a mostrar o que tem de melhor ou de pior. Temos visto isso todos os dias nos conflitos que, infelizmente, o mundo está assistindo. - E é preciso estar em um campo de batalha para compreender isso? Não. O campo de batalha entra todos os dias em nossas casas, através da TV, e nem por isso compreendemos melhor o sentido de nossas vidas. Na verdade, o homem desenvolveu uma série de valores (dinheiro, poder, estética) que exigem sua dedicação total, que justificam sua luta, sua vida, tudo isso para que não pare e se pergunte: “sou feliz?” O que faz o homem compreender seu destino é parar e pensar se está contente com o que faz, e com quem está compartilhando os seus dias. Mas isso exige muita, muita coragem. No livro, o casal tinha uma relação perfeita, aberta, e mesmo assim a mulher o deixa. O que é na verdade a instituição do casamento? Procuro analisa-la do ponto de vista de minha própria experiência como ser humano. - Na sua opinião, o Zahir é parte de nossa experiência universal como seres humanos? O zahir pode ser uma pessoa, um trabalho, um objetivo, mas que – ao invés de nos dar a alegria de tentar atingi-los, nos desvia para uma obcessão doentia. Infelizmente, todo mundo passa por esta experiência. - No livro, o Sr. aborda insistentemente o tema de que temos uma história que nos contaram, e uma história que não nos contaram? Sem dúvida, e posso dar alguns exemplos: o pior de todos os suplícios humanos é a cruz. Lembro-me de ter lido em Cícero que era um “castigo abominável”, provocando sofrimentos horríveis antes que a morte chegasse. E, no entanto, hoje em dia as pessoas a carregam no peito, colocam na parede do quarto, passaram a identifica-la como um símbolo religioso, esqueceram que estão diante de um instrumento de tortura. Só para citar mais um exemplo cristão: a árvore que todos nós temos em casa durante as festas de final de ano. São Bonifácio decidiu “cristianizar” um ritual dedicado honrar o deus Odin quando era menino: uma vez por ano as tribos germânicas colocavam presentes em torno de um carvalho, para que as crianças os descobrissem. Achavam que com isso alegravam a divindade pagã. - Uma pessoa pode ter mais de um zahir em sua vida? Quando as frustrações se acumulam, os zahires aparecem. Assim, não pensamos em como solucionar o problema – ficamos fixados na imagem dele. - Um zahir pode nos guiar em direção a um objetivo, ou é apenas um objeto de desejo? Uma coisa é seguir seus sonhos, e acreditar nos sinais que guiam o caminho: temos um objetivo determinado, mas desfrutamos da viagem. No caso do zahir, não existe esta alegria com cada passo dado, apenas a ansiedade de se conseguir teimosamente o que achamos que é necessário em nossas vidas. - Por que o personagem principal do livro vem do Casaquistão? Por causa da tradição tengri deste país que, embora muito antiga, tem ainda muito que nos ensinar. É a espiritualidade sem a religião formal. Esta tradição, que no fundo é adorar o milagre do cotidiano, permitiu aos nômades e as pessoas que ali viviam, sobreviverem ao impacto de religiões estabelecidas. Recentemente estava na Espanha, tinha ido a uma missa, mas na hora do sermão sai e fiquei olhando a paisagem à minha volta. Dei-me conta que havia um alto-falante que transmitia as mensagens do padre, mas a análise do evangelho tinha muito mais sentido porque eu estava no alto de uma montanha, olhando lá embaixo o mundo, a manifestação do milagre de estar vivo. - Como Paulo Coelho escreve seus livros? Como um mergulho no meu inconsciente. Deixo-me guiar pelas perguntas que minha alma faz, mas que a mente ainda não compreendeu direito. No processo de escrever, descubro minhas próprias respostas. - Entre os livros que escreveu, qual é o mais próximo de “O Zahir”? Cada livro é diferente, e expressa um determinado estado da minha alma. O que caracteriza meus livros não é tanto o tema, mas o estilo – ser direto, sem ser superficial. - Quem são seus escritores favoritos? William Blake, Henry Miller, Jorge Luis Borges, Jorge Amado. - De que maneira sua experiência como um dos autores mais vendidos do mundo, mudou sua percepção da literatura? A medida que eu viajo, leio as correspondências eletrônicas de leitores, dou conferências, vou percebendo que o livro hoje em dia é tão importante como a música foi para a minha geração. - Você acha que no mundo Ocidental, em uma época em que se cultua a celebridade, ainda existe espaço para o intelectual? Eu acho que o intelectual pode ser uma celebridade, e deve tratar disso de maneira respeitosa, sem preconceitos, procurando usar a fama para melhorar o estado atual do mundo. Existem vários bons exemplos, como Pete Gabriel, ou Bono. - É possível, através da literatura, reconciliar a cultura popular com a cultura acadêmica? A cultura popular de hoje é a cultura acadêmica de amanhã. Veja também: - Genesis do O Zahir

22/11/2005 Publicada por maktub

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